O medo de que o medo acabe

Frei Gustavo Medella

“Há quem tenha medo que o medo acabe”. Esta frase foi dita pelo poeta moçambicano Mia Couto no encerramento de uma conferência proferida em 2011. Retrata a preocupação de quem vive a propagar o medo para dominar, para se colocar acima de seus pares e semelhantes. O medo do crime pode se tornar uma verdadeira indústria de criminosos, assim como o medo da fome tem forte potencial para produzir uma geração de famintos. A religião, quando se fia do medo, produz, no mínimo, insanidade mental, para não citar outras consequências mais graves.

Jesus, ao se apresentar como a encarnação do Emanuel, que significa “Deus Conosco”, mexeu fundo nos interesses daqueles que, em nome da lei e da tradição, colocavam-se como representantes de um Deus distante, irado e implacável. Esta imagem do divino era conveniente e vantajosa, pois permitia a poucos dominarem sobre muitos, sempre à custa de um medo planejado e difundido.

Com o poder humilde que o Pai lhe confiara, de quem não precisava salvaguardar qualquer vantagem para si, Jesus se lança radicalmente numa nova proposta, onde a vida do ser humano é de fato o bem maior. De Deus ninguém deveria ter medo, pois o sonho do Pai para seus filhos era que todos tivessem vida, e “vida em abundância” (Cf. Jo 10,10). Para Ele não havia dificuldade de compreender que a lei existe em função das pessoas, e não o contrário. Aí está o escândalo e o incômodo para quem sempre esteve acomodado numa situação de se sentir superior e, por isso, mais digno de privilégios do que aqueles que o cercavam.

Em nossos dias, temos a graça de encontrar no Papa Francisco um pastor sem medo. Seus gestos, seus pronunciamentos e suas prioridades querem encher de coragem a Igreja para que seja fiel à missão que herdou de Cristo. Seu pontificado é um convite insistente e permanente para que a Igreja deixe de lado todos os filhotes daninhos que nascem do medo: clericalismo, carreirismo, alianças espúrias, corporativismo, conservadorismo, hipocrisia, autorreferencialidade. Vencendo o medo, estaremos dando um passo significativo para nos purificarmos de todos estes fantasmas e para estarmos em maior sintonia com o Evangelho de Jesus.


Na imagem do pintor espanhol Murillo, o regresso do filho pródigo. Deus não é implacável, mas misericordioso e amoroso.

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