Frei Luiz pede testemunhos de vida e não de morte

Moacir Beggo

 Rio de Janeiro (RJ) – O quinto dia da Trezena de Santo Antônio, no Convento do Largo da Carioca (RJ), teve como pregador Frei Luiz Colossi para falar sobre Santo Antônio e o testemunho do Evangelho. Sem dourar muito a pílula, foi claro ao denunciar que a cultura de morte que está sendo implantada no país, “colocando armas nas mãos de crianças em vez de Deus em seus corações”, está na contramão do testemunho deixado por Jesus Cristo.

O guardião Frei José Pereira, ao apresentar o pregador, lembrou de seu trabalho com os hansenianos em Venda das Pedras e informou que ele agora reside na Fraternidade Porciúncula de Santana, em Niterói.

Este dia 4 de junho foi especial pelo aniversário do Convento Santo Antônio, que completou 411 anos, e por ser uma terça-feira, liturgicamente dedicada a Santo Antônio em todos os conventos franciscanos.  Frei Luiz contou que fez uma extensa pesquisa sobre o tema, mas na última hora o destino foi o lixo. Segundo ele, não precisou ir longe para encontrar inspiração, mas bastaram as próprias leituras bíblicas do dia, onde o tema do testemunho aparece na fala de Paulo e de Jesus no Evangelho, quando faz a belíssima oração ao Pai. “Eu te glorifiquei na terra e levei a termo a obra que me deste para fazer”.

“E eu, o que digo como testemunho? Onde fui aprender que devia seguir Jesus a exemplo de São Francisco, Santo Antônio e de outros tantos santos. Em que escola aprendi o que é testemunho?”, perguntou. Segundo ele, sem muito esforço, basta voltar no tempo e ver o testemunho dos pais. “Eles são os primeiros a dar testemunho de um seguimento do Evangelho. Me lembro, por exemplo, que a mãe e o pai nunca chamavam a gente para ir à Missa. Porque não precisava chamar. A gente já sabia onde iam e o que íamos fazer lá na igreja. A gente sabia que Deus é pai, que nos protege, que a mãe está aqui. É uma bênção de Deus e não se questionava os pais. Não era por ignorância, mas bastava o testemunho dos pais. Naquele tempo, não tinha Bíblia, nem tinha televisão para acompanhar tantas informações acerca da vida de Jesus e do Evangelho. No entanto, a gente via essa graça de Deus através do testemunho da família. E aí a gente pergunta: Como anda nossa família? Ela é de fato um lugar, um ambiente de família, de fé e de testemunho?”, provocou.

Para ele, hoje a crise na sociedade e na vida pública tem raízes fincadas na família. “Se fizermos uma análise, até de maneira superficial, vamos ver que se há tanto mal no nosso meio é porque a nossa família está bastante mal. E, com certeza, muito mal às vezes porque não damos testemunho do Evangelho”, disse.

Segundo ele, Santo Antônio também dava testemunho pela vida e aprendeu com seus piedosos pais. “A gente conceitua Santo Antônio como ‘Trombeta do Evangelho’ – isso é verdade -, mas não é um Evangelho de palavras e de pregações. Mas de testemunho. Às vezes, palavras nos emocionam, nos cativam, mas em pouco tempo são esquecidas. O testemunho, não! Ele arrasta. E aqui está a grande ideia do testemunho de Santo Antônio como anunciador do Evangelho”, acrescentou.

Frei Luiz contou que domingo passado estava num encontro de jovens e fez a seguinte pergunta durante o momento penitencial: “Então, jovens, a gente peca porque é fraco, não é verdade? Todos responderam sim. Perguntei de novo: pecamos porque somos limitados, frágeis, não é verdade? Eles responderam sim. Eu disse: Mentira. Eles ficaram todos assustados. Porque no mundo de hoje aqueles que se dizem grandes e fortes só fazem besteira. Quanta inteligência, quanto conhecimento, mas não falam uma palavra de esperança, de vida. Não são testemunhas para nós”, criticou.

Frei Luiz lamentou que hoje, em vez de dar uma Bíblia para a criança, entregam uma arma em suas mãos: “Entregam um fuzil para tirar a vida do outro. E está tudo bem!”

Segundo o frade, não está nada bem, e as famílias precisam colocar Deus no coração das crianças. “É lá nos primeiros dias de nossa existência, no ventre de nossa mãe, que a gente aprende as coisas. Não vamos achar que depois vamos aprender. Um ou outro milagre acontece, como São Paulo que caiu do cavalo – mas ele teve que cair do cavalo e depois se reerguer para poder, de fato, seguir Jesus. Mas são poucos esses casos. O berço é o começo”, insistiu. Para ele, os pais se preocupam em matricular os filhos no inglês, na natação, no caratê, mas não têm tempo para Deus. “As avós é que levam os netos para igreja, mesmo com os pais contrariados. Crianças de 8 e 10 anos não sabem nem fazer o sinal da cruz”, lamentou.

Santo Antônio aprendeu pelo testemunho e não pela teoria, segundo o pregador. “A gente acha que quanto mais conhecimento mais o mundo será transformado. Achava que depois dos anos 80 a gente levaria o Evangelho a todo mundo com tantos meios de comunicação novos. Mas me enganei. E aí, a gente olha, em 2019, para o Rio de Janeiro, onde moro há 27 anos. Fico tão triste de ver o Rio de Janeiro assim. Onde está aquela Cidade Maravilhosa? Onde está?”, questionou.

“Que testemunho é esse que nós damos?”, voltou a questionar. “Como vamos reconstruir com paz e amor a nossa família, nosso bairro, nossa região, sem ter Deus? E a gente olha para o noticiário e se descabela com tanta coisa ruim. E de onde vem essa corrupção? Vem de onde? Vem da família. Os corruptos têm família. Têm pai e mãe, tem avô e tem avó. Todos os líderes têm pais e mães”, lembrou, lamentando tanto jovens desempregados, pegando em armas e drogas. “Eu não consigo entender como é que um pai e uma mãe entrega uma arma para um filho? Eu não consigo entender por que homens públicos de nosso país acreditam que a paz de nosso país, do Rio de Janeiro, vai ser construída colocando armas na mão do povo? Quando Jesus disse, já na sua condenação, para Pedro: “guarde essa arma!”, Ele desarmou todo mundo”, recordou.

“Santo Antônio vibrava pela vida e não pela morte do semelhante. E nós ainda aplaudimos quando alguém faz esse discurso em defesa das armas. Gente, onde estamos? E o pior é quando vejo colegas franciscanos dizer que têm mesmo que usar arma. Meu Deus! Nós precisamos denunciar tudo isso e anunciar o testemunho vivo e verdadeiro do Evangelho. Não temos que ter medo ou vergonha de anunciar o bom testemunho, de ser pessoas honestas, dignas. Porque é assim que arrastamos todo mundo para uma sociedade digna, verdadeira e de paz. Então, você que está à frente, tem que dar testemunho. O padre tem que dar testemunho. Ele foi convidado por Jesus para dar testemunho. Ele não pode ser alguém em pecado. Nós, cristãos, temos que dar testemunho desse Jesus. Às vezes, a gente vai à Missa, reza o terço, a Trezena, mas com que paixão tenho vivido isso? Até nós, padres, celebramos a Eucaristia sem vibrar. Onde está a paixão como tinha Santo Antônio? Será que deixo a força do Espírito Santo vibrar?”, exortou.

Concluindo, Frei Luiz pediu a todos devotos de Santo Antônio, São Francisco, para darem testemunho e exemplos aos filhos. “E colocar Deus no coração. Não há outro caminho! Sem coração, a gente não ama; sem coração, a gente não vibra; sem coração, a gente não dá testemunho. Isso vem daqui de dentro”, encerrou batendo no peito.

Nesta quarta-feira, 5 de junho, a Trezena de Santo Antônio chega no sexto dia, celebrando o tema “Santo Antônio e a beleza da Criação”. Será um dia para lembrar que a nossa Mãe Terra está em perigo. Em 1972, durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, em Estocolmo, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu o Dia Mundial do Meio Ambiente, que passou a ser comemorado todo dia 05 de junho.


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