Convento volta a ser casa de formação religiosa com FAV

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Moacir Beggo

Rio de Janeiro (RJ) – Ao completar 410 anos, o Convento Santo Antônio é também, neste início de mês, uma Fraternidade de Acolhimento Vocacional (FAV). Até o final de setembro, os jovens aspirantes à vida religiosa franciscana, Gilberto Silveira da Costa Júnior, de Agudos (SP); Gustavo Henrique da Silva Toratti, de Guapiaçu (SP); e Bruno Almeida de Mello, de Curitibanos (SC), poderão fazer melhor o seu discernimento vocacional, conhecendo e convivendo com os frades em uma fraternidade franciscana. Neste período, Frei Roger Brunorio será o responsável para acompanhá-los nesta etapa de formação.

No passado, o Convento Santo Antônio foi “um ateneu célebre de estudo e dele se irradiava a ação franciscana sobre todas as partes do Sul”, explica o historiador Frei Basílio Röwer. Foi casa de estudos filosóficos, teológicos e do noviciado. Tanto que o primeiro jovem “carioca” que tomou o hábito franciscano no Convento de Santo Antônio foi Frei Sebastião dos Mártires, provavelmente no ano de 1638.

Atualmente, na Província da Imaculada, os aspirantes passam por duas fases antes do Postulantado. Ficam os três primeiros meses no Seminário São Francisco de Assis, em Ituporanga (SC), e depois fazem uma experiência de quatro meses em uma das Fraternidades de Acolhimento Vocacional da Província (FAV), um tempo de discernimento vocacional a partir da modalidade evangélica do “Vinde e Vede”. No final do ano, no início de outubro, retornam ao Seminário para concluir esta fase antes do Postulantado.

sav_070618_1A ideia do Convento de se tornar uma FAV partiu de Frei Roger, que obteve apoio da Fraternidade. “Temos um Convento muito grande, uma Fraternidade grande e uma realidade muito diversa. Acho que é uma contribuição que podemos dar à Província trazendo para cá esses jovens para que eles possam sentir como é a vida em fraternidade”, explicou o frade, que também é animador do grupo de jovens vocacionados, hoje com cinco candidatos.

Frei Roger, contudo, terá o apoio dos frades na formação em áreas como liturgia, espiritualidade, bíblia, história franciscana e história da Província. “É uma riqueza muito grande você ter um aspirante fazendo uma experiência aqui, onde há um idoso que precisa de cuidados, outro que é mais jovem, um frade que é confessor, outro pregador, outro escritor. É uma casa que está no centro urbano de umas das principais capitais do país. Ao mesmo tempo que está num espaço urbano, que reúne o antigo e o moderno, o convento de 410 anos fica num morro com um espaço de verde. Isso ajuda muito. É uma cidade turística e o nosso público é muito devoto de Santo Antônio. Ou seja, é um desafio para se viver uma vida mais conventual ou uma vida mais pastoral. São muitas as possibilidades”, acredita Frei Roger.

“A presença deles é uma presença jovial, já que temos uma Fraternidade mais idosa. Não só os fiéis ganham mas a Fraternidade também ganha com eles”, acrescenta o frade.

Frei Roger, em contrapartida, não acredita que uma casa antiga e uma grande fraternidade poderiam sufocar esse discernimento. “Os vocacionados estão vindo por causa do seguimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, do modo de São Francisco. Então, esse ponto de partida não pode ser perdido. Se a gente olhar para nós mesmos, vamos ver que somos limitados. Temos vícios e virtudes. O mais importante é ver as virtudes e trabalhar os vícios”, ensina o frade, citando São Francisco: “Ai daquele frade que escandaliza os outros, mas é pior aquele que fica escandalizado com o vício do outro”.  Para ele, temos que procurar ver “em toda a Fraternidade as coisas boas”.

Frei Roger recordou que, quando era vocacionado, trabalhou como sacristão numa experiência semelhante no Convento da Penha. “Tinha convivência em tempo integral com a Fraternidade. Fiz uma experiência riquíssima. Foi aí que conheci o Frei Daniel Krober, que está enterrado aqui no Convento. Morreu em 2000. Ele dizia: ‘Olhe os problemas que você vê de uma fraternidade, isso vai te dar forças’. Foi um tempo de experiência muito bom e enriquecedor. Então, eu vivi uma FAV”, garante Frei Roger.

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Outro aspecto muito positivo para a FAV do Convento Santo Antônio é a proximidades das casas do Regional.  “Os aspirantes aqui também vão ter oportunidade de estar nas outras fraternidades do Regional, principalmente nos finais de semana, quando a atividade conventual é pequena aqui. Eles tomarão contato com fraternidades e realidades contrastantes, por exemplo, Niterói e a Rocinha, a Baixada Fluminense e Petrópolis”, acrescenta o animador vocacional.

Ter uma FAV no Convento Santo Antônio é uma forma de a Província, através do Pró-Vocações, retribuir aos benfeitores, que aqui no Rio são muitos. “É uma forma de estar prestando contas para os benfeitores que não só ajudam materialmente mas que rezam pelas vocações”, observou.

TESTEMUNHO MOVE OS JOVENS

Os três jovens, contudo, que iniciam esta experiência foram unânimes em dizer que o impulso para a tomada de decisão veio do testemunho dos frades.

Eles chegam no momento mais efervescente da vida pastoral e conventual do Santo Antônio. Até o dia 13 estarão fazendo o “batismo de fogo” em meio à Trezena de Santo Antônio. “A formação começa mesmo depois das festividades”, adianta Frei Roger. Neste período, três pilares sustentarão a sua formação: Experiência da vida e missão da Fraternidade; participação ativa na vida da Igreja local; e Leitura, estudo e reflexão.

gustavo_070618Gustavo Henrique da Silva Toratti

Tem 24 anos e veio de Guapiaçu, Noroeste Paulista. Cursou até o segundo ano de Filosofia na Diocese de São José Rio Preto quando decidiu conhecer melhor a vida franciscana. “Estava bem no seminário da Diocese. Sentia segurança por estar perto da família. Mas na Paróquia da Diocese, onde atuava, conheci um frade capuchinho que veio do Nordeste e seu modo de evangelizar me chamou a atenção. O jeito de estar com o povo era diferente. Aquilo me questionou mas não tinha coragem de abrir mão do que vivia, até que tudo mudou quando passei a fazer parte da Pastoral com o Povo de Rua. Me desliguei da Diocese durante um ano e procurei os franciscanos”, contou.

 

bruno_070618Bruno Almeida de Mello

Tem 19 anos e veio de Curitibanos (SC). Por incentivo do avô, ingressou na Universidade Federal de Santa Catarina para fazer Agronomia. Já estava no segundo ano quando começou a frequentar a Paróquia Nossa Senhora da Conceição e ter contato com os frades desta Província. “O Frei Roberto Carlos me chamou para participar do grupo de jovens e depois ajudei no Apostolado da Oração. Eu não tinha coragem de dizer que queria ir para o Seminário, até que um senhor, o Germano, me animou. E assim comecei a ter orientação com Frei Roberto”, recordou. Filho único, a decisão foi bem recebida pela família da mãe, mas a família do pai, a mais católica, não aceitou até agora.

 

gilberto_070618Gilberto Silveira da Costa Júnior

Tem 18 anos e veio de Agudos (SP). Já havia concluído um semestre da Faculdade de Sistemas de Informação na Unesp, quando resolveu deixar tudo para seguir São Francisco. “Quando falei para minha mãe que iria para o Seminário, ela ficou branca e em choque”, recordou. Mas hoje, segundo ele, a família aceita bem sua escolha e apoia. Em agudos, existem três presenças franciscanas dos frades da Imaculada – um seminário e duas paróquias – e esse contato com os frades foi mudando a vida de Gilberto. “Até que na Caminhada Franciscana de 2016, vi um grupo grande de frades. Aquele “monte” de frades reunido, fraternos e alegres, mexeu comigo”, revelou o jovem, surpreso com a grandiosidade do Convento Santo Antônio. Mas feliz por estar aqui.