Capela das Relíquias

capelaOs três degraus da Capela das Relíquias, que conduzem aos três nichos, que guardam o “tesouro” da Basílica, já estão quase gastos.

É fácil compreender o motivo: desde que este espaço “misterioso” e “real”, planejado há mais de trezentos anos (1691) pelo genovês Felipe Parodi foi aberto aos fiéis, passou a ser considerado o “coração” do templo, etapa obrigatória para externar a própria veneração ao Santo.

A suntuosa Capela é um louvor às “relíquias” antonianas, ou melhor, à Língua do Taumaturgo, que foi colocada ao centro da arquitetura, bem visível e encerrada num precioso relicário.

Logo na entrada, admirados pelo grande arco, percebemos num cartaz, segurado por um anjo, o início da exclamação de São Boaventura, quando efetuou o reconhecimento do corpo do Santo, ao encontrar sua língua intacta: O Língua benedicta quae Dominum semper benedixisti etc.

Após alguns séculos, ainda é fácil imaginar a emoção que São Boaventura e o numeroso povo tiveram, em 8 de abril de 1263, ao constatar que, entre as cinzas e os ossos, a Língua do Santo estava perfeita, como a de uma pessoa viva, apesar de estar enterrada há trinta e dois anos.

Segundo Frei Pietro Raymondi de Saint Romanin, que talvez estava entre os presentes, na hora do acontecimento ou pelo menos ouvira contar por testemunhas oculares, cita palavras maravilhosas, que merecem ser descritas na primeira biografia do santo em 1292.

“O Ministro Geral, pegando a Língua na mão, com toda reverência e em lágrimas, começou a dirigir-lhe palavras devotas, diante de todos os que estavam ali reunidos, dizendo: “Ó Língua bendita, que sempre bendisseste o Senhor e fizeste que também os outros o bendissessem sempre; pela tua conservação se compreende bem qual o teu mérito diante de Deus”. E cobrindo-a de tenros beijos, pediu que ela fosse colocada, separadamente, num relicário.

Em 1351, o Capítulo geral dos frades Menores, ocorrido em Lião, instituía oficialmente a festa da Transladação das relíquias, fixando a sua data anual em 15 de fevereiro.

Uma lenda estranha sobre o desaparecimento da Língua

 

A partir de 1263, foi preciso esperar um século para se voltar a falar da relíquia da língua, segundo a narração de Frei Bartolomeu de Pisa, leitor do convento do Santo, no último quarto do século XIV. Ele conta uma lenda estranha sobre o desaparecimento da relíquia. Diz que, por volta de 1350-55, a sagrada relíquia foi reencontrada dentro de um altar, onde fora escondida por um Ministro Geral da Ordem.

Querendo roubá-la, não conseguiu, milagrosamente, encontrar a saída da igreja. Por isso, teve que depositá-la ali. Ele mesmo havia revelado o segredo a um frade, ao qual narrou o episódio, somente depois de meados do século. Isso permitiu a redescoberta da Língua incorrupta, que foi colocada, imediatamente, pelos frades num tabernáculo de cristal.

Os três relicários que conservam a Língua de Santo António

O atual relicário é o terceiro, por ordem de tempo, a conservar a Língua do Santo. Ao longo dos tempos, foi grande a concorrência para que se tomasse cada vez mais bonito e precioso, até chegar àquele que hoje podemos admirar: uma obra-prima em ourivesaria de Giuliano de Florença.

(Extraído da revista “O Santo”, texto de Alfredo Pescante, fevereiro de 2003)