412 anos do Convento Santo Antônio

Largo da Carioca – Rio de Janeiro – RJ

Texto e fotos: Frei Róger Brunorio, ofm

Caros confrades, amigos, benfeitores, fieis e devotos de Santo Antônio

Paz e bem

     No dia do aniversário de alguém gostamos de parabenizar com lembranças das coisas boas, de fatos importantes de sua história, desejar vida longa, tudo de bom e melhor. Ao celebrarmos hoje os 412 anos da fundação do convento Santo Antônio, do Largo da Carioca, queremos festejar a data com alegria, reconhecendo este espaço sagrado como a morada do Senhor, a Casa de Deus, o Templo Santo, o oásis urbano, a nossa casa, o lugar da nossa devoção, a fonte da nossa fé, o refúgio da vida, o chão que nos sustenta, a montanha que nos renova, o abrigo de nossa alma, a extensão da nossa casa e família, o lugar de descanso, da confraternização de amigos, a escola de religiosidade, história, cultura, arte e espiritualidade.

     Temos muitos motivos para celebrar os 412 anos da fundação desse monumental conjunto arquitetônico franciscano. Particularmente hoje se alegram a província franciscana, os frades que aqui residiram e os que residem, e todos aqueles e aquelas que também têm uma relação ativa e afetiva com essa Casa de Deus. A história do convento é também a história dos devotos de Santo Antônio, de muitos cariocas, turistas e visitantes. Uma história viva e presente de muitas maneiras. A relação com este lugar centenário é a relação dos que passam por aqui por alguns instantes ou horas, dos que frequentam diariamente as atividades religiosas – para agradecer, pedir, rezar -, dos que sobem para fazer as suas refeições e descansar, daqueles que veem para apreciar, estudar e pesquisar a história, a cultura e a religiosidade. Cada pessoa que aqui sobe faz também a sua história e de alguma forma deixa a sua história cravada neste monumental edifício franciscano.

     O conjunto arquitetônico com os seus bens móveis e integrados constitui um dos conjuntos religiosos mais importantes do Brasil. Fatos religiosos, políticos, sociais aconteceram atrás das reforçadas paredes e no extenso adro. Episódios do passado até hoje presente na memória pessoal e coletiva.  Assim lembramos nomes como os de Fabiano de Cristo e Frei Antônio Santana Galvão, como homens de santidade; Frei Francisco Sampaio, com a sua importante participação na Independência do país, Frei José Mariano Veloso – o pai da flora fluminense, – todos franciscanos dos séculos XVIII e XIX. Também não podemos deixar de lembrar os confrades que marcaram presença durante do século XX. Citando apenas alguns, como Frei Basílio Röwer, Frei Pedro Sinzig, Frei Tomás Borguermeir, Frei Rogério Neuhaus, Frei Patrício Schmidt, Frei Clemente Kesselmeier, franciscanos da espiritualidade, da cultura, da pregação, da reconciliação, da alegria e do acolhimento. Religiosos promotores da paz e do bem.

     Neste aniversário não podemos deixar de lembrar as pessoas que ficaram no anonimato ou no esquecimento. Pessoas que contribuíram de muitas maneiras para a história desses 412 anos. Fazemos memória daqueles que arquitetaram a construção desse monumento, dos negros escravizados que levantaram as paredes, dos artistas – escultores, pintores, marceneiros – que decoraram o convento e a igreja como sinal da beleza de Deus e instrumento de catequese e evangelização. Os restauradores que sempre atuaram no árduo trabalho de recuperação e preservação das obras sacras e de arquitetura. Os nossos colaboradores que aqui trabalham diariamente nos diversos serviços. Também dos inúmeros benfeitores que com a sua generosidade mantiveram e mantém este patrimônio sagrado.

     Na história do convento houve época de tristeza. Recordamos alguns desses momentos. Quando o imperador Dom Pedro II, em 1855, proibiu a entrada de noviços nas Ordens Religiosas foi um deles. Com o decreto imperial o convento ficou esvaziado e restando apenas um franciscano carioca, Frei João do Amor Divino Costa. Com a brutal determinação as atividades quase paralisaram e as portas ficaram eminentes de se fecharem. Já no século 20, com a febre amarela (1903) e depois a pandemia da gripe espanhola (1918) que assolou a cidade do Rio, também atingiram as atividades no convento. E agora, neste presente momento da pandemia do novo coronavírus também entra para a história como fato de muita tristeza.  A pandemia não só fechou as portas do centenário convento franciscano há dois meses, como ceifou a vida de alguns amigos, benfeitores e fiéis devotos de Santo Antônio. Confiamos ao Senhor as nossas vidas e pedimos ao amado Santo Antônio a sua intercessão junto a Deus por toda humanidade.

     No evangelho de hoje “Jesus resume a essência e o espírito da vida humana num ato único em duas faces inseparáveis: amar a Deus com entrega total de si mesmo, porque o Deus verdadeiro e absoluto é um só e, entregando-se a Deus o ser humano desabsolutiza a si mesmo, o próximo e as coisas; amar o próximo como a si mesmo, isto é, a relação num espírito de fraternidade e não de opressão ou de submissão. O dinamismo da vida é o amor que tece as relações entre a humanidade, levando todos aos encontros, confrontos e conflitos que geram uma sociedade cada vez mais justa e mais próxima do Reino de Deus” (Bíblia sagrada, edição pastoral, p.1300).

     O nosso convite para celebrarmos com jubilo estes 412 anos de fundação do convento é de sermos como Santo Antônio. Sejamos homens e mulheres portadores da Palavra de Deus, praticantes dessa palavra que acolhe, ama, perdoa e reconcilia. Sejamos portadores do lírio, carregando com as nossas vidas a pureza que não julga e nem condena o outro, mas que olha com a pureza que é própria de quem segue Jesus pobre e crucificado. Sejamos portadores da cruz que nos faz mais humanos, pacíficos, irmãos e irmãs de todas as criaturas. Sejamos portadores de pão. Do pão da palavra de Deus e do alimento que sacia a fome dos pobres. E por fim, sejamos portadores do Menino Jesus, carregando-O em nossos braços, anunciando a todos a sua bondade, ternura, amor, docilidade e reconciliação.